Um artigo publicado nesta terça-feira, 6 de janeiro de 2026, na revista Genomic Psychiatry aponta o Brasil como peça-chave para desvendar os mecanismos biológicos que permitem a algumas pessoas viverem além dos 110 anos. A pesquisa é liderada pela geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP), e analisa dados de supercentenários brasileiros — grupo considerado sub-representado em bancos genômicos internacionais.
Quem participa do estudo
O acompanhamento longitudinal reúne mais de 160 centenários, dos quais 20 são supercentenários validados, espalhados por diferentes regiões do país. Entre eles estão:
- o homem vivo mais velho do mundo, com 113 anos;
- dois ex-recordistas masculinos que chegaram aos 112 anos;
- a freira Inah Canabarro Lucas, reconhecida como a pessoa mais velha do planeta até falecer em abril de 2025, aos 116 anos.
Alguns participantes permaneciam lúcidos e independentes no momento do contato com a equipe, mesmo tendo vivido grande parte da vida em localidades com acesso limitado a serviços de saúde modernos.
Mistura populacional como vantagem científica
Mateus Vidigal de Castro, primeiro autor do artigo e pesquisador do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP, afirma que a predominância de amostras europeias em bases globais dificulta a detecção de variantes protetoras presentes em populações miscigenadas. No Brasil, séculos de mistura envolvendo indígenas, europeus, africanos e, posteriormente, imigrantes de vários continentes já renderam milhões de variantes inéditas não registradas em bancos internacionais.
Descobertas biológicas
As análises apontam que células sanguíneas de supercentenários mantêm atividade de proteassoma semelhante à de indivíduos muito mais jovens e preservam mecanismos de autofagia que eliminam proteínas defeituosas. Outra observação foi a expansão atípica de células T CD4+ com perfil citotóxico, comportamento raramente visto em faixas etárias menores.
Exemplo de resiliência na pandemia
Três supercentenários brasileiros infectados pelo SARS-CoV-2 em 2020, antes da vacinação, se recuperaram após desenvolver altos níveis de anticorpos IgG neutralizantes e proteínas ligadas à resposta imune inata, reforçando a hipótese de resiliência imunológica sistêmica nessa faixa etária.
Imagem: Shutterstock
Famílias longevas
Casos de longevidade familiar também foram documentados. Um deles envolve uma mulher de 110 anos cujas três sobrinhas têm entre 100 e 106 anos; a mais velha conquistou título de natação aos 100. Segundo os autores, agrupamentos assim permitem investigar como fatores genéticos e epigenéticos se combinam na chamada herança poligênica da resiliência.
Próximos passos
A equipe planeja sequenciar todo o genoma dos participantes, derivar linhagens celulares para estudos funcionais e realizar análises multiômicas. Há ainda parceria com a professora Ana Maria Caetano de Faria, da Universidade Federal de Minas Gerais, para aprofundar o perfil imunológico dos supercentenários.
Apelo por maior inclusão
No artigo, Mayana Zatz conclama consórcios internacionais de genética a ampliarem a representatividade de populações miscigenadas ou financiarem pesquisas conduzidas no Brasil. A científica argumenta que a diversidade é fundamental para avançar no entendimento da saúde global e reduzir desigualdades na ciência.
Com informações de WizyThec

