O Telescópio Espacial James Webb forneceu a visão mais nítida já registrada do centro da galáxia espiral Circinus, localizada a cerca de 14 milhões de anos-luz da Terra. A observação revelou com precisão inédita o disco interno de gás e poeira que alimenta o buraco negro supermassivo da galáxia, esclarecendo a origem do intenso brilho infravermelho emitido por sistemas ativos.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada por Enrique López-Rodríguez, da Universidade da Carolina do Sul, que aplicou um modo de alto contraste do James Webb capaz de atravessar a densa camada de poeira no núcleo de Circinus. É a primeira vez que a técnica é usada fora da Via Láctea.
Descobertas principais
Os dados indicam que aproximadamente 87 % da radiação infravermelha parte de um disco compacto e quente situado imediatamente ao redor do buraco negro. Esse reservatório concentra o material que sustenta o crescimento do objeto central. Em contraste, menos de 1 % da emissão se origina de uma estrutura tênue em forma de arco — denominada Arco Norte — criada por fluxos de matéria expelidos pelo próprio buraco negro. O restante do brilho vem de regiões mais externas aquecidas pela radiação central e por um pequeno jato de rádio.
Com a nova técnica, a resolução alcançada praticamente dobra a capacidade original do telescópio, permitindo distinguir o disco de acreção, o toro de poeira em forma de rosca alinhado ao plano galáctico e os fluxos de saída — componentes que, em instrumentos anteriores, apareciam como uma única fonte difusa de luz.
Impacto nos modelos de galáxias ativas
Os resultados desafiam teorias consolidadas que atribuíam o excesso de infravermelho em galáxias ativas principalmente a ventos de poeira. A clareza obtida pelo James Webb mostra que o disco interno de gás e poeira exerce papel dominante na produção dessa radiação, enquanto os fluxos de saída contribuem de forma marginal.
Imagem: NASA
A equipe acredita que estruturas semelhantes ao toro observado em Circinus sejam comuns em outros núcleos ativos. Por isso, pretende aplicar o mesmo método a uma amostra maior de galáxias próximas para investigar a relação entre a massa dos discos de acreção, os fluxos de saída e a potência desses sistemas.
Buracos negros supermassivos são considerados peças-chave na evolução galáctica: ao consumirem matéria, liberam energia suficiente para tanto estimular quanto inibir a formação de estrelas, influenciando diretamente a configuração das galáxias que os abrigam.
Com informações de WizyThec

