Um e-mail interno de 4 de setembro revela que o Google decidiu não remover anúncios do Ministério das Relações Exteriores de Israel veiculados no YouTube que garantiam haver “abundância de comida em Gaza”. A decisão foi tomada mesmo depois de a empresa receber um grande volume de denúncias de usuários e de autoridades que apontavam informação enganosa diante dos alertas da ONU sobre fome na região, segundo o The Washington Post.
Os vídeos, publicados em 24 de agosto, exibem cenas de um mercado com frutas, pães e doces e trazem a mensagem: “Há comida em Gaza. Qualquer outra afirmação é uma mentira”. O material foi veiculado em vários idiomas e superou 7 milhões de visualizações apenas na versão em inglês.
De acordo com o jornal, as imagens foram gravadas em julho, período em que os primeiros carregamentos de alimentos chegaram ao território após meses de restrições impostas por Israel. O fotojornalista palestino Majdi Fathi, autor das gravações, afirmou que os produtos mostrados estavam à venda por preços considerados inacessíveis para a maioria da população local.
Decisão interna
No e-mail obtido pelo Post, a equipe de Trust and Safety do Google concluiu que o conteúdo “não viola nossas políticas”, que proíbem material enganoso ou sensível. A avaliação envolveu áreas jurídicas e de segurança da companhia, que entenderam que os anúncios não se enquadravam nas regras contra conteúdo perigoso, depreciativo ou com alegações não confiáveis.
Mesmo após novas queixas — incluindo uma denúncia formal apresentada pela agência estatal polonesa NASK, que classificou o vídeo como “manipulado” — o Google manteve a campanha ativa. Em nota ao jornal norte-americano, o porta-voz Michael Aciman declarou que a plataforma possui regras claras sobre publicidade e que remove conteúdo que as viole.
Campanha multimilionária
Os anúncios fazem parte de uma estratégia digital do governo israelense para disputar a narrativa sobre a situação humanitária em Gaza. Documentos citados pelo site Drop Site News indicam que Israel destinou pelo menos US$ 45 milhões a campanhas no YouTube em 2025. Peças semelhantes também foram veiculadas no X (ex-Twitter) e em plataformas da Meta.
Contexto e repercussão
Organizações humanitárias e governos de Austrália, Canadá, Japão e países da União Europeia têm solicitado que Israel amplie o fluxo de ajuda para evitar a fome. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 67 mil palestinos morreram desde o início do conflito, e milhares enfrentam desnutrição.
Imagem: Reprodução
Fontes do Google ouvidas sob anonimato afirmaram ao Post que grandes empresas de tecnologia vêm reduzindo a checagem de fatos em anúncios políticos, limitando remoções a conteúdos que ameacem saúde pública ou integridade eleitoral. O professor Sam Woolley, da Universidade de Pittsburgh, alertou que campanhas desse tipo transformam plataformas digitais em instrumentos de propaganda.
Internamente, grupos como o No Tech for Apartheid — formado por funcionários do Google e da Amazon contrários a contratos com o governo israelense — dizem ter enviado mais de 50 mil reclamações pedindo a retirada dos anúncios.
Até o momento da publicação, os vídeos permanecem disponíveis no YouTube.
Com informações de WizyThec

