Cientistas demonstraram em laboratório que o RNA, molécula essencial para todos os organismos, pode se formar sem intervenção biológica em condições semelhantes às da Terra há 4,3 bilhões de anos. O trabalho, conduzido por Yuta Hirakawa, da Universidade de Tohoku (Japão) e da Fundação para a Evolução Molecular Aplicada (EUA), foi publicado em 15 de dezembro na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Como o experimento foi realizado
A equipe misturou ribose, fosfatos e as quatro nucleobases do RNA a boratos e basalto, rocha vulcânica comum. A amostra foi aquecida e deixada secar, simulando ciclos úmido-seco de antigos aquíferos subterrâneos. O resultado surpreendeu: mesmo na presença de boratos — antes considerados um bloqueio químico — o RNA se formou. Os pesquisadores observaram que os boratos estabilizaram a frágil ribose e favoreceram a ligação com fosfatos.
Superando um obstáculo histórico
O estudo resolve um paradoxo do chamado Modelo de Síntese Descontínua (DSM), via considerada a mais provável para originar RNA. Até então, imaginava-se que o abundante boro nos oceanos primitivos impediria etapas críticas da reação. A nova evidência indica o contrário: os boratos teriam sido peça-chave no processo.
Ligação com o espaço
Os autores conectam o experimento a dados da missão OSIRIS-REx, que trouxe à Terra amostras do asteroide Bennu contendo ribose e outros blocos de RNA. Eles sugerem que um grande impacto, há cerca de 4,3 bilhões de anos, pode ter semeado o planeta com esses compostos em larga escala, muito antes dos primeiros registros fósseis de vida.
O cenário ganha força porque boratos também foram identificados em Marte, onde colisões de asteroides eram frequentes na juventude do planeta. Assim, as condições químicas descritas no estudo podem ter ocorrido em outros mundos do Sistema Solar e, possivelmente, além dele.
Imagem: Vitória Lopes Gomez via DALL-E
Embora não produza vida em laboratório, a pesquisa fornece um caminho plausível para a síntese da molécula precursora, reforçando a hipótese do “Mundo de RNA” como etapa fundamental na origem dos seres vivos.
Com informações de WizyThec

