Um estudo divulgado na última semana pelo Cambridge Archaeological Journal indica que caçadores-coletores da cultura Chinchorro, que habitaram a costa do atual norte do Chile, iniciaram a mumificação de mortos cerca de 7 000 anos atrás para enfrentar o luto, especialmente após abortos espontâneos, natimortos e alta mortalidade infantil.
A pesquisa, liderada pelo antropólogo Bernardo Arriaza, da Universidade de Tarapacá, em Arica, analisou restos preservados no árido Deserto do Atacama. As primeiras múmias identificadas pertencem a recém-nascidos e bebês, o que reforça a hipótese de que a prática surgiu como resposta emocional à perda de crianças.
Ambiente hostil e contaminação por arsênico
Sítios próximos ao rio Camarones apresentavam altos níveis de arsênico, fator que pode ter contribuído para frequentes complicações na gestação e óbitos precoces. Diante disso, segundo Arriaza, as famílias passaram a transformar os corpos com terra, gravetos e pigmentos, mantendo-os próximos e decorados como forma de preservar a memória e obter alívio emocional.
Evolução do ritual
A técnica, inicialmente simples, tornou-se cada vez mais elaborada. Máscaras, pinturas corporais e perucas passaram a compor os cadáveres, e o costume foi estendido a pessoas de todas as idades. O pesquisador estabelece paralelo com a arteterapia contemporânea, destacando que o trabalho manual sobre os corpos funcionava como catarse coletiva.
Toxicidade que minou a população
O processo, porém, trouxe consequências severas. Pigmentos à base de manganês, usados para colorir as múmias, liberavam poeira tóxica. A exposição prolongada provocava danos neurológicos e quadros de psicose conhecidos como “loucura por manganês”. Ainda que tenha perdurado por aproximadamente 3 500 anos, a prática foi gradualmente abandonada, possivelmente em razão dos efeitos nocivos à saúde.
Imagem: Universidade de Tarapacá
Alguns exemplares dessas múmias integram hoje a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco. Embora durante décadas fossem consideradas as mais antigas do planeta — anteriores às egípcias, datadas de 4 500 anos —, estudos recentes apontam que os registros mais remotos de mumificação estão no Sudeste Asiático, com cerca de 14 000 anos.
O estudo sugere que o ritual que começou como estratégia de conforto emocional acabou contribuindo para o declínio do próprio povo Chinchorro, impactado pela toxicidade dos pigmentos utilizados na preservação dos corpos.
Com informações de WizyThec

