O Rio Grande do Sul deve enfrentar, ao longo deste século, uma intensificação sem precedentes de cheias e de estiagens, segundo pesquisa do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). As projeções utilizam séries históricas de 50 anos e simulam cenários para o período entre 2050 e 2100.
Os autores alertam que o estado, já considerado um dos mais sensíveis às mudanças no ciclo hidrológico, terá eventos extremos como parte da rotina. O estudo recomenda revisão imediata de práticas de engenharia, planejamento urbano e gestão de recursos hídricos para evitar que os custos de reconstrução superem os de prevenção.
Mais chuva, porém menos regular
A precipitação média anual pode subir 4,8%, mas o salto mais relevante está na frequência dos picos de chuva. Eventos hoje raros — com tempo de retorno de 100 anos — poderão ocorrer até cinco vezes mais. Chuvas intensas de curta duração (até um dia) devem ficar 15% mais volumosas em situações com retorno de dez anos, enquanto as chuvas máximas diárias podem aumentar até 60%.
Esse cenário eleva o risco de inundações. Em grandes e médios rios, a vazão máxima projetada cresce 20%; episódios frequentes sobem 14% e casos raros, 13%. Na prática, cheias em rios da Serra podem atingir níveis três metros superiores aos atuais. Já em Porto Alegre e arredores, a elevação prevista é de 50 centímetros a um metro, suficiente para ultrapassar os sistemas de proteção existentes.
Secas mais longas e severas
Ao mesmo tempo, parte do território gaúcho enfrentará estiagens prolongadas. O estudo aponta déficit hídrico 42% maior, redução de 11% nas vazões mínimas e acréscimo médio de três dias na duração das secas anuais. A combinação de excesso de água em determinados períodos e escassez em outros torna a gestão hídrica um desafio permanente, impactando agricultura, abastecimento urbano e geração de energia.
Imagem: Bruno Peres
Novo padrão para obras e planos
Após as cheias de 2023 e 2024, o estado já iniciou a revisão de parâmetros de projetos. Entre as diretrizes em discussão estão sistemas de drenagem capazes de suportar 115 mm de chuva em 24 horas e obras contra inundações que considerem aumento de 13% na vazão máxima. Os pesquisadores defendem também alertas antecipados, mapeamento de risco, diques reforçados e integração entre órgãos de gestão hídrica.
Para os responsáveis pelo estudo, projetar obras com base apenas no histórico é insuficiente. A orientação é adotar cenários futuros mais severos como referência, evitando que a exposição a cheias e secas extremas se torne permanente.
Com informações de WizyThec

